sábado, 13 de junho de 2009

Mas que m...

Theo, não posso me aguentar, não posso deixar de falar em uma de suas características mais marcantes atualmente: seu cocô. Sim, por conta do leite que você toma, o número dois só saía de dois em dois dias. Trocamos o leite e, invariavelmente, agora a meleca toma conta de sua fralda diariamente.
E que beleza, filhote! É de dar inveja ao seu tio Felipe Campbell! Geralmente é bastante pastosa. A primeira parte de seu cocô é mais escuro, entre um verde e um marrom. E não dá para ter pressa de trocar. Tem que ter paciência. Somente quando aparece um brigadeiro cheio de pontinhos brancos é que dá para tirar sua calça elástica e limpar.
E o cheiro?
Sério, Theo, dá para sentir lá da sala. Pode se orgulhar, meu filho: é poderoso! Um verdadeiro cheiro de cocô masculino!
Nunca tenha vergonha de falar dessas coisas escatológicas. Eu não vou ter vergonha de conversar com você sobre isso. Aliás, quando junta um bando de homens para falar besteira, taí um assunto que rende horas e horas de risos.
O único fato que me deixa pau da vida – e que te deixará bastante vermelho quando você for mostrar o blog do seu pai para suas namoradas – é quando você inventa de fazer xixi. Além de encher a fralda com aquele líquido amarelado, você tem o seu pai como alvo preferencial. É impressionante! Você espera eu tirar a calça plástica para mirar nas minhas camisas... A última foi na sexta-feira, dia dos namorados de 2009, na hora de seu banho. Você estava peladinho há alguns minutos, enrolado na toalha. Eu te desenrolei e virei seu rosto para mim. Eu conversava com você e você ria. De repente, fez uma cara de concentrado e o jato de xixi veio direto na águia do símbolo dos Ramones...
Tudo bem, não tem problema. Só espero que você tenha paciência quando seu pai for bem velhinho, usando calças plásticas, e você tiver que me trocar...

terça-feira, 19 de maio de 2009

Seu olhar

Da nossa pequena varanda a visão também não é das maiores ou melhores, Theo. Na frente, dá até para tomar conta do filhos dos vizinhos, de tão perto que é. Do lado esquerdo, uma fresta entre um prédio e outro mostra... outros prédios. E na direita aparecem duas árvores, um poste colorido enorme do posto Peter Pan e a nervosa EPTG. Bom, parte dela. Daqui é possível ver o trânsito, o congestionamento e dizer se vale a pena alguém visitar a gente ou se a gente pode sair de carro.

Você gosta da nossa varanda. Da visão, ainda não dá para dizer. Afinal, todas as vezes que sua mãe quer te acalmar, ela te leva lá. Uma brisa leve e a claridade fazem você fechar os olhos e adormecer bem mais rápido. Talvez esses momentos já comecem a criar uma memória sua. Pensamentos que te acompanham durante o sono. Ou lembranças que fazem você sorrir. E gargalhar. Ninguém acredita muito porque só eu e sua mãe já vimos. Não é que você faça barulho de gargalhada, mas faz uns sons engraçados, abre sua boca banguela e se sacoleja todo.

Talvez seus olhares profundos para mim e para sua mãe também te acompanhem durante seus sonhos e quando você fica mirando pro nada, perdido nos seus pensamentos de bebê. Quando você está bem calminho ou enquanto a gente te dá a mamadeira, você fica com aqueles olhinhos vidrados, como se me enxergasse o coração. E a gente fica ali, minutos, um encarando o outro, como se fosse um só organismo, como se soubesse que eu também me alimento disso. Seus olhinhos que ainda não se definiram de que cor serão também me acompanham durante meus sonhos. E pode perguntar para sua mãe, ela terá a mesma opinião: como a gente conseguiu viver sem seu olhar durante tanto tempo?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mais um dia de aventura

Theo, hoje foi um dia de novidades e descobertas para nós. Primeiro, fomos fazer algo chamado estimulação precoce. Não, não tem conotação sexual. Como você passou seus dois primeiros meses de vida dentro de uma UTI, pode ter perdido tempo no seu desenvolvimento motor principalmente. Uma criança prematura deveria sempre fazer isso – pena que é tão caro e seus amiguinhos e amiguinhas mais carentes precisam de virar de outro jeito. Então, uma especialista em fisioterapia e outra em terapia ocupacional fizeram um check up em você. Elas mesmas falaram: você é um menino muito esperto. O trabalho de fisioterapia feito na UTI foi muito bom. Vamos ver o que virá daqui para frente.

Agora, no início da noite, você estava com dores. Reclamou muito, chegou a chorar. Teve uma hora em que eu te peguei no colo, barriga colada no meu peito, cabeça encostada na minha cabeça. Dentro do seu quarto, rodei um pouco e você continuou a choramingar. De repente, parou. E voltou a chorar. E parou. E voltou. Notei que você se calava quando seus olhos passavam por um certo lugar especificamente. Era o quadro com suas fotos. De quando você estava na barriga da sua mãe. De quando nasceu. De quando estava na UTI. Cheguei você bem perto das fotos. Você abriu seus olhos e os fixou nas imagens. Chegou a esticar os bracinhos. A história da sua vitória está ali, Theo. Momentos congelados da nossa felicidade e agonia.

Entre um e outro acontecimento, estava eu a navegar na net, procurando quem oferecesse Pre Nan mais barato. Um garotão prematuro e sem o leite da mamãe, pesando tão pouco para sua idade precisa desse produto. Caro, muito caro. Mas que está fazendo você engordar horrores. Então, descobri um blog de uma mãe portuguesa chamada Ana Salvador, salvo engano (http://www.nascerprematuro.org/). Ali tem histórias de outros bebês prematuros, dicas, histórias, fóruns para discussão. E uma lista bem interessante de pessoas famosas que nasceram prematuras, assim como você, Theo. Aí vão elas:

- Albert Einstein
- Charles Darwin
- Isaac Newton
- John Keats
- Mark Twain
- Napoleão Bonaparte
- Renoir
- Winston Churchill
- Thomas Hobbes
- Victor Hugo
- Voltaire
- Jean-Jacques Rousseau
- Anna Pavlova
- Stevie Wonder

Belas companhias, hein?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Durma bem, Theo...


THE BANGLES "Eternal Flame"
Nos nossos planos, o Theo só dormiria no berço ou no máximo no carrinho. Não é assim. Não dá para ficar só olhando ele chorar, mesmo sabendo que é manha ou que ele está com sono e com o tempo dormirá. Mas eu tenho minhas manhas também. Se ele estiver com sono, mas lutando para não dormir, basta eu carregá-lo no colo, colocá-lo no carrinho ou no berço e cantarolar essa musiquinha brega mas efetiva. Tem uma explicação: uma parte da estadia do Theo na UTI foi dentro da ala cirúrgica. E quando havia um parto, as enfermeiras colocavam um CD com versões de músicas pop para bebês. Esta era uma das músicas. Durma bem, Theo!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Só nós três...

Estou aqui a ouvir Fluffy Puffy Clouds, especialmente feita para bebês. A TV está desligada e você, Theo, faz uns barulhinhos só seus. E se mexendo. Louco pra que a gente pegue você no colo. Uns olhos enormes que agora começam a mostrar verdadeiramente de que cor serão. São mais claros que os meus, acho que é mel. São 18h e chega essa hora você fica bastante agitadinho. Não quer muito saber de dormir. Fica assim até umas 21h.

Gosto de ficar olhando pra você durante muito tempo. Às vezes fico meio impaciente de você não tirar seus cochilos, mas na maior parte do tempo é muito bom olhar pra você e ver você olhando fundo pra mim. Agora dá gosto de ver suas bochechas ficando rosadas, sua respiração constante e você sugando com vontade suas mamadeiras. Está comendo que é uma beleza!

Você, Theo, com pouco mais de dois meses de vida, e mudando todos os dias. Hoje em dia você gosta de tomar banho, apesar de às vezes dar uma reclamada. É louco por um colo. E gosta que eu empurre você bem rápido no carrinho. Ah, e pega no sono toda vez que entra no carro. Tem dores de barriga e cólica, mas pensei que seriam piores. Na verdade, você é um bebê até bem calminho. Como foi avisado, nossas horas de sono são escassas e esparsas. E como eu avisei, não adiantou nada eu ter dormido muito antes...

Vou tentar escrever mais para você aqui no seu blog, Theo. Mas é difícil. Não pelo trabalho que você dá. Eu não me importo. O problema é que ficar acordado e longe de você me dá aflição. Feito sangria desatada, quero curtir você, seus barulhinhos, seus olhares, seus sorrisos – ah, eu e sua mãe descobrimos que de vez em quando você dá gargalhadas, chega até a tremer. Quero curtir você e só isso. E deixa eu acabar isso aqui porque já estou com saudades.

PS.: Deixamos uma semana de "spa" para trás, com seus avós Agenor e Goretti e sua dindinha Carol dando toda a atenção para você. E na hora em que passamos na casa dos seus avós Luiz e Zilda, seu vô Luiz não aguentou a onda: depois de ver você dormindo com aquela cara tranquila que você fica durante o sono, ele saiu correndo e escondendo o choro...

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Seu segundo nascimento

Foram 65 dias. E noites. E madrugadas. E conversas com médicos, enfermeiras, técnicas em enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogas. Desânimos, lágrimas e cabeça baixa a cada derrota – como os sete dias em que você ficou gripado, Theo. Mas também sorrisos e comemorações, ainda que contidas, a cada vitória sua. Enfim, você saiu da UTI. Já tinha passado um pouco das 13h30 dessa quarta-feira, dia 29 de abril de 2009. Dia 29, assim como o aniversário da sua mãe. Assim como o casamento de seus pais.

O dia do seu segundo nascimento.

Perdoem toda a pieguice do texto a partir de agora. Depois de 65 dias assim, eu preciso desabafar. De qualquer jeito.

Você foi forte, Theo. Você e seu anjo da guarda. Seus 915 gramas iniciais não foram páreo para vocês dois. Hoje, com 2,015kg, nossas preocupações, graças a Deus, são outras. Agora, como pais "normais", tentamos descobrir se você chora por fome, sono, manha ou fralda cheia. Ou qual é a melhor posição para você quando está com cólica. E qual o melhor horário para as visitas. Ah, Theo, tem um monte de gente que quer ver você e, em vez de ficarmos preocupados ou estressados com tantas visitas, só conseguimos respirar aliviados. Porque você está ali, do nosso lado, com aqueles olhos arregalados, curiosos para devorar o mundo ao seu redor.
Não vou mentir, Theo. Deixei de escrever um tempo para você por causa da minha preocupação. Como sempre, seu pai fingiu ser forte para segurar as pontas. E nesta quarta-feira quase eu não consegui. Todas as enfermeiras e técnicas que cuidaram de você foram mágicas, especiais. Mas três quase fizeram eu cair no choro. Ana Paula, Lídia e Patrícia beijaram você e saíram correndo, dando tchau meio de costas para mim e para a sua mãe. Elas acham que nós não notamos, mas senti que elas não vieram nos abraçar porque estavam com os olhos marejados, assim como eu.
Claro, não vou sentir saudades da UTI. Mas não dá para negar que foi um grande aprendizado. De sofrimento e de alívio. De tristeza e de felicidade. De solidão e de amizade. Quando você for maiorzinho e encontrar algum amigo ou amiga de seus pais, pode abraçar, dar um beijo e agradecer. Todos eles colocaram um tijolinho no muro que protegeu nos três. Todos eles e elas foram responsáveis também pelo seu segundo nascimento.